sábado, 2 de julho de 2011

colonialismo, neocolonialismo e racismo

A foto acima, que caiu na rede sem autorização minha, virou alvo de comentários chocarrões e injuriosos e foi adulterada por site ou post-spam. Olhando agora para ela, devidamente reconstituída, tento relembrar o momento em que foi tirada. Há circunstâncias evidentes: eu estava em uma biblioteca e, a julgar pelos alunos ao fundo, estava trabalhando. Uma lembrança desses tempos e que ex-alunos sempre mantêm viva, com mensagens por e-mail ou pelo facebook, é que fazíamos o paper de filosofia. Pela jovialidade dos rostos ao fundo da imagem, pode-se ver bem que o trabalho era direcionado a adolescentes. Talvez um dia algum historiador da educação, se é que essa profissão existe, examine as produções teóricas desses alunos e lhes atribua o merecido quinhão de glória pela envergadura analítica e moral de suas realizações. Quanto a mim, que os ajudava, como Sócrates, o parteiro, como Epicuro, o auxiliador, o que eu fazia era ensinar-lhes o método e apontar-lhes, com minha formação relativamente eclética, os autores e as obras que julgava mais adequados às afinidades intelectuais de cada aluno, que eu aprendia a conhecer pelas suas dissertações. Lembro-me também que eu escrevia e reescrevia um longo e demorado livro, algo como o meu discurso do método. Chamei-o de “Curso de Filosofia Inexistencial, a filosofia do exílio”. Desse Curso, republico a seguir algumas anotações, que servem aqui mais para me recordar o cenário intelectual e existencial de uma parte importante da minha vida, como sor Hingo, ainda que, decididamente, não seja capaz de apontar o ano exato da foto, que deve ter sido tirada antes do final do século XX.

Colonialismo, neocolonialismo e racismo:

O colonialismo pode ser compreendido examinando-se as relações entre: (a) o colonialista propriamente dito, pertencente à elite da Metrópole, (b) o colono, habitante pobre da metrópole conduzido à terra colonizada, e (c) o indígena, o autóctone da terra colonizada – no contexto da reflexão de Sartre sobre a Argélia, são os muçulmanos. Diz Sartre, caracterizando o colonialismo francês na Argélia: “A colônia vende barato gêneros alimentícios, produtos não manufaturados, e compra caro à Metrópole produtos manufaturados. Esse estranho comércio não é proveitoso às duas partes a não ser se o indígena trabalha por nada, ou quase” (Jean-Paul Sartre, Situações V, p. 42). “Nada ou quase nada”: Sartre afirma que o lucro médio do francês na Argélia, portanto, do colono, era dez vezes superior ao do indígena muçulmano. 

“Para a maior parte dos europeus na Argélia [colonos], há duas verdades complementares e inseparáveis; os colonos são homens por direito divino, os indígenas são sub-homens. É a tradução mítica de um fato exato, já que a riqueza de uns repousa sobre a miséria de outros” (Sartre, op. cit., p. 69). A primeira verdade para os colonos: os privilégios dos colonos e das elites com as quais comercializam dependem da exploração da força de trabalho do indígena. A segunda verdade para os colonos e complemento inseparável da primeira: os colonos seriam, tal como as elites metropolitanas, seres humanos superiores em relação ao indígena. Assim, o colono seria primeiramente homem, enquanto que o indígena seria secundariamente homem, portanto, sub-homem. 

“Uma ideologia petrificada se aplica em considerar homens como animais que falam. Vãmente: para dar-lhes ordens, que fossem as mais duras, as mais insultantes, é preciso começar por reconhecê-los; e como não se pode vigiá-los sem cessar, é preciso, e muito, decidir-se a ter neles confiança: ninguém pode tratar um homem “como um cão”, se ele não o tem, primeiramente, como um homem. A impossível desumanização do oprimido volta-se e se transforma em alienação do opressor: é ele, é ele mesmo que ressuscita, por seu menor gesto, a humanidade que quer destruir; e, como não a nega nos outros, encontra-a em todo lugar como uma força inimiga. Para escapar disso, é preciso que ele se mineralize, que se entregue à consistência opaca e à impermeabilidade da rocha, enfim, que ele, por sua vez, se desumanize" (op. cit., p. 45-46). 

A “impossível desumanização do oprimido”: se o colono reconhece a si mesmo primeiramente e miticamente como homem e secundariamente ao indígena como homem – portanto, como sub-homem – ao mesmo tempo e no princípio de sua pretensão o colono reconhece, como uma serpente mordendo a sua própria cauda, que o indígena é primeiramente homem. É como dizer que eu penso que eu não penso. Se pretendo, a princípio, negar a minha condição de ser pensante, examinando a minha pretensão com cuidado, observo que a própria negação pretendida é anulada porque primeiramente eu tenho que dizer que eu penso que eu não penso, afirmando o que pretendo negar. Assim, quem diz “um homem como um cão”, antes de dizer “cão” diz “homem”. Não há como escapar disso, a não ser renunciando à própria condição humana, o que somente seria concebível se o colono se mineralizasse e se petrificasse, que, enfim, mudasse de condição e abdicasse – pela sua renúncia definitiva e inexorável, já no fundo de sua opacidade e impermeabilidade de rocha – de toda e qualquer possibilidade de dizer ou pensar “eu penso”. 

Sartre: “Um homem não pode ser mais homem do que os outros porque a liberdade é igualmente infinita em cada um” (Situações I, “A liberdade cartesiana”, p. 286). Por outro lado, um homem não pode ser menos homem que os outros porque...(mesma premissa). Ainda: nenhum homem é menos homem que o outro, visto que a capacidade de dizer “eu penso” é igual em todos; no entanto, um homem pode conduzir sua razão de modo diverso a outro, o que não retira, como pretende o racista, a condição humana daquele que conduz a sua razão de modo diverso. Por exemplo, um homem pode ter “a memória mais ativa, outro maior imaginação; este compreenderá mais rapidamente, aquele abarcará um campo de verdade mais vasto. Mas estas qualidades não são constituintes da noção de homem: é preciso ver nelas acidentes corporais” (ibidem). Por outro lado, “Esta liberdade total, precisamente porque não admite graus, é evidente que pertence de igual modo a todo o homem. Ou, melhor – uma vez que a liberdade não é uma qualidade entre outras – é evidente que todo o homem é liberdade” (ibidem). 

Na prática racista, não há condução da razão, mas ausência total de condução, porque as ações são praticadas sob a senhoria da parte irracional da alma. O que se quer dizer com “conduz a sua razão de modo diverso” é que o racista, normalmente, apela, na tentativa de justificar sua suposta superioridade humana, para valores ou qualidades supostamente sublimes, como inteligência e cultura. Mas essas qualidades, como mostram Descartes e Sartre, não são nada perto da liberdade. O absurdo racista: de que essas qualidades definiriam o homem. Elas, perto da liberdade, são nadas, são meros acidentes corporais. São como verrugas. 

A inautenticidade: pensar que a liberdade, que não admite graus, admitiria graus; maior para um e outro, menor ou nula para a maioria. 

Inautenticidade e má consciência: querer a liberdade para mim, e não a querer para os outros ou querê-la menor para os outros. Pense: se a minha liberdade perfeita e a escravidão perfeita alheia – que seria a dissimulação total da liberdade – não são inconciliáveis. Continue pensando: se a liberdade perfeita alheia não está em desacordo com a minha suposta escravidão perfeita. 

Geralmente, dizemos “Eu como professor” (ou outra coisa: como cidadão, como mulher, enquanto estudante) quando iniciamos a reivindicação de um direito. Nesse contexto, certamente soaria estranho se disséssemos “Eu como livre”. Por quê? A liberdade não é um direito humano. Ela é o homem. Eu = livre. 

Se tivéssemos como produzir um clone de nós mesmos, em tudo idêntico a nós mesmos, estaríamos agindo bem se, de acordo com a tendência geral, o puséssemos a trabalhar para nós, realizando todas aquelas tarefas pesadas de nossas vidas? A tendência de escravizar o nosso próprio clone mostra o quão enraizada está, em todos nós, a “cultura” escravagista. 

Que “eu” é esse, que se escravizaria a si mesmo? Se a liberdade me exime da sujeição a Deus, por que não me eximiria da sujeição a mim mesmo?